Cheguei à praia e quis ir direto ao quintal de "seu Benedito", fiquei lá no reveillón e sabia que teria o mínimo de conforto, mas o bom preço, fogueirinha para cozinhar e a amabilidade do dono da casa. Logo o avistei, estava sentado sem camisa de costas para mim conversando com alguns jovens no mesmo local onde eu acampara ainda este ano. Parei atrás dele e chamei três vezes até que me desse atenção.
"-O que é?" disse secamente.
"-Seu Benedito! Quanto é pra acampar aqui?"
"-Sete."
"-Sete seu Benedito?"
"-Sete."
Os jovens por trás de seu Benedito indicavam por sinais que ele os cobrara cinco. Mas não usei esse argumento.
"-Seu Benedito, no reveillón o senhor me cobrou cinco."
"-Estou trabalhando com sete."
Ataquei.
"-Seu Benedito, baseado em quê esse aumento? O senhor só tem um banheiro e um chuveiro. Seu terreno é todo irregular e não tem árvores pra fazer sombrinha e o senhor vai cobrar o mesmo preço do Luís?"
"-Vou." E contra-atacou.
"-Cinco reais não é nada! Não enche barriga de ninguém! Não compra ovo! Não paga nada! Não é nada cinco reais! Vocês vêm lá de... Estados unidos, São Paulo, esses lugar aí... paga um dinheirão pra vir pra cá... chega aqui quer pagar cinco reais. Ninguém mais aqui trabalha com esse preço não!"
Estava sendo derrotado, joguei a última carta.
"-Seu Clementino me ofereceu a varanda da casa dele por cinco reais."
"-Quem?Onde?"
Ele estava desestabilizado. Era só investir.
"-Seu Clementino. Se o senhor insistir em sete eu vou pra lá." De fato havia uma varanda coberta por cinco reais, passei por lá antes ainda de ir ao "seu Benedito", mas omiti para soltar a informação agora.
Benedito me deu as costas como resposta. Os jovens se divertiam com o acontecido. Era a hora da frase derradeira.
"É cinco ou sete seu Benedito?"
Silêncio. Estava perdendo novamente.
"É sete?"
Silêncio. Havia perdido. Peguei minhas coisas e fui embora para a varanda que me salvaria dos temporais dos dias posteriores.