O sol fez questão de registrar sua presença deixando-o afagado pelo resto do dia.
Acordei numa taça de geléia de morango, alguns instantes bastaram para constatar que não, estava mesmo dentro da barraca. Abri o mosqueteiro, o céu estava claro porém incolor. O ar estava fresco e cheirava a seiva de plantas. Meu chinelo fedia a gato. Mijo de gato, um odor amargo, tanto quanto amônia. Levantei, calcei-os e me alonguei um bocado, no chão um garrafão de vinho derramado e copos ao redor denunciavam a festa da noite anterior, fixei o horizonte e continuei o alongamento, tenho usado o horizonte como forma de meditação. Foi ele também quem me despertou tensão às sete da manhã. Ontem pela noite esteve na praia um capitão da polícia militar, e após uma caminhada cercada de olhares de soslaio, disse que voltaria na manhã seguinte e queria encontrar todas as barracas desmontadas e as pessoas embarcando de volta para Angra. Eu teria duas horas até as nove, horário que disse que voltaria, para arrumar minhas coisas, desmontar minha casinha e ainda tomar café. Fui imediatamente às roupas, guardá-las. E depois às roupas de cama, panelas e comidas. Enfim, só faltava a barraca e ainda eram oito, daria tempo até para um cigarro. Fui à beira do mar e enquanto fumava me estalou que todas as barracas continuavam intactas e a praia vazia, logo as pessoas estavam dormindo, menos eu. Um sentimento diferente brotou, uma espécie de
preocupação universal, eu me preocupara pela praia inteira e ao mesmo tempo não havia ninguém ali que se preocupasse comigo. Estive neste registro até o fim do cigarro, que pareceu ter-me posto no eixo, de tal maneira que me pus na horizontal e instantes depois metade do corpo estava dentro da barraca, cabeça sobre a volumosa mochila, pernas para fora. Eu era a bruxa do oeste.
Algumas horas depois, "seu Clementino", o dono da casa viria com a notícia de que tudo não passara de maldade zombeteira do policial e que medidas já haviam sido tomadas contra sua conduta para que então eu pudesse reorganizar minha vida, caminhar sete quilômetros até a praia do Leste e voltar, permitindo que o sol registrasse em mim sua presença deixando-me afagado pelo resto do dia.