Blog Pobre

Saturday, February 19, 2005

 

Hermeto

O ônibus parou e Vicente embarcou. Cumprimentou o motorista e o cobrador, desde pequeno simpatizava com os profissionais do transporte público, tirou do bolso um punhado de moedas de cinco entregando ao cobrador, que satisfeito com a gentileza do rapaz contou os níqueis e sorriu agradecido: "É minha primeira viagem."
Era um mulato sorridente, seus dentes eram preciosas pedrinhas brancas separadas por fendinhas, devia escová-los todos os dias terrívelmente. O uniforme azul, bem passado e limpo, deixava escapar metade da palavra "Jesus" na camisa branca que vestia por debaixo.
Vicente sorriu de volta e sentou-se no primeiro banco da fileira, à sua frente o perfil daquele bom mulato, esmirrado, de sorriso débil e dentes de alvura invejável. O ônibus estava vazio, no banco ao lado sacolas de supermercado espremiam uma moça magra de olhos grandes no canto.Além da moça havia um casal enamorado sentado no fundo e um senhor gordo de longos cabelos brancos amarrados e barba volumosa sentado na parte da frente em um dos assentos discriminados para maiores de sessenta e cinco. Estava de costas para Vicente que mirava a nuca do senhor numa tentativa de fazê-lo virar, curioso para ver de frente a fisiônomia do homem que de costas parecia Hermeto Paschoal. O ônibus ia lento, àquela hora da manhã não era normal o trânsito se tornar caótico. Relevou, ao menos teria tempo bastante para acertar no velho um raio suficientemente forte para fazer aquele corpo pesado se virar.
A procissão de automóveis parava a cada cinquenta metros, numa dessas inúmeras paradas havia subido um único passageiro, um moreno de estatura média que levava uma mochila vermelha, e que apesar da aparência de pouco mais de trinta, era calvo. Bastante calvo. Estava sentado no banco do lado oposto ao senhor de barba branca. No mesmo quadro, lado a lado, um homem cuja vasta cabeleira branca, apesar do desgaste de mais de setenta anos, se conservara lá, notável. E um homem que não tinha vivido metade do tempo de vida do velho, mas o suficiente para que lhe fugissem os cabelos. "Deve ter uma vida difícil" - pensou Vicente - "ou talvez seja apenas genética."
Ainda mirava sem sucesso a nuca do velho, quando ouviu barulho de sirene. Pôs a cabeça pra fora da janela, viu a causa de toda a lentidão do mundo naquele momento, um carro agressivamente atravessado na mureta que dividia as pistas. Recolheu a cabeça, não gostava de ver acidentes, muito menos sangue, embora não houvesse. Espalhado pela pista havia óleo sendo limpado por uma potente mangueira do carro dos bombeiros. Trabalhavam rápido desviando o trânsito e limpando a estrada quando passamos pelo local. O trânsito enfim se normalizaria e voltaria a entrar algum vento pelas janelas.
Na boca do túnel o careca levantou em direção à roleta. De perto, os olhos fundos e a barba rala revelavam um homem de uns trinta e oito anos, e lábios finos como tirinhas de carne. Apoiou a mochila na roleta e abriu a parte de frente procurando por moedas, gesto que causou o sorriso dócil do cobrador. Procurava por moedas, mas puxou uma pistola. O ferro causou o recuo assustado de todos ali.
"-Eu não vou roubar! Vou me ressarcir!" Disse fazendo questão que todos ouvissem. Então mandou que o cobrador cedesse a ele o lugar, o mulato num pulo só caiu sentado ao lado de Vicente. O motorista menos atento à estrada do que tenso com a situação acompanhava a cena pelo retrovisor, o suor brotava-lhe na testa. Com a arma em punho o careca sentou-se na grande cadeira, puxou da mochila uma câmera e se auto-fotografou tendo ao fundo a expressão do mulato ao lado de Vicente, as sacolas agarradas à moça de olhos salientes, e o casal abraçado no banco de trás. Guardou a câmera. Olhava o cobrador. " Eles cobram muito mais do que deveriam, seu patrões, aposto que te pagam quatro laranjas por mês. Paguei passagem por mais de vinte anos. Agora tô correndo atrás do prejuízo." Novamente fez com que todos ouvissem: " Vocês também deviam!"
Abriu a gavetinha, só haviam algumas poucas moedas.
"-É minha primeira viagem." O cobrador lhe pedindo desculpas. A moça das sacolas lhe implorando que não levasse suas compras.
"-Senhora, não sou bandido.Quero recuperar o que é direito meu. Não tenho o direito de levar suas bolsas, mas o dinheiro que me vem sendo roubado há vinte anos." Levantou a arma chamando atenção de todos.
"- Não se impressionem! Eu uso isto aqui porque meu corpo é tão frágil quanto o de vocês e eu tenho certeza. Certeza do que um ser-humano é capaz de fazer com um outro." Parecia sincero.
"- Está descarregada"- disse guardando a pistola na mochila- "Não tenho coragem de usar. Só em garrafas, num semelhante não." O túnel terminava a poucos metros. Encheu as duas mãos de moedas e pediu ao motorista que parasse no próximo ponto, virou-se.
"-Se eu não reagir, ninguém reagirá por mim..." E a cabeça explodiu como uma bola de gás. Moedas tilinitaram no chão, e uma rolou calmamente por todo o corredor até o fundo e parou no pé do homem com a pistola ainda em punho. Cinco centavos, uma forma de agradecimento da sociedade por seu ato de bravura e serviços para o governo. A moça gritou, o cobrador gritou, o velho gritou e o motorista freou. Vicente chorou. Chorou pelo corpo e pelo homem que acabara de matar outro homem. Chorou pela esposa do assasino, que deitada gemia chorando pelo cheiro de pólvora nas mãos que a abraçava. Chorou pelo susto. Pelo uniforme do mulato, tão limpo, manchado de sangue. E ao ver o rosto do velho, que se revelava enfim branco como o de Hermeto, chorou. Sabia que não era ficção e que na realidade seria impossível que a câmera fosse subindo, subindo, subindo, e que ao som de um acordeon tocando "Bebê", o ônibus fosse ficando cada vez menor, desparencendo então com tudo aquilo mais.



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