Blog Pobre

Monday, February 14, 2005

 

Último diário de viagem

Não fosse sua consciência, poderia jurar estar num bambuzal chinês, tamanha era a névoa que assentara no plano baixo da região da barraca, de modo que deitado via-se a espessa camada de fumaça e ao levantar-se sabia exatamente seus limites, tornando-se um jogo interessante a repetição contínua destes movimentos.
É noite, ele está deitado, ao seu redor roupas e comidas espalhadas formam um quadro de informações confusas. Em seu círculo de atenção uma panela sustenta a vela e o incenso de cheiro doce, ao redor figuram uma caixa de fósforos semi-aberta, uma garrafa de água mineral e a tampa da panela onde um pequeno inseto esquisito brinca frenéticamente. Acendeu um cigarro, o que tornou a fumaça ainda mais densa. Podia-se enxergar pouco, mas o bastante para ver o inseto se aproximar, erguer a cabecinha e as sombrancelhas e dizer:
"-E aí, curtindo o lugar?" Era uma vozinha delicada porém grave.
Remo hesitou. "Sim, bastante." Parecia saber que acabara de responder a um inseto. Houve um pequeno silêncio entre os dois, mas o inseto não parava de se mover um instante sequer.
"-Aqui é tranquilo." Disse subindo pela panela.
Remo concordou com um ruído. Tentava sem sucesso focar o bichinho, estava curioso por saber que tipo impressionante de inseto seria aquele.
"-Qualidade de vida. Vim pra cá fazem quatro meses, estou com seis de vida, quer dizer, já superei em três a expectativa da minha espécie.
"-Qual sua espécie?" Perguntou ávido por resposta.
"-Formiga."
"-Formiga?!"
"-Formiga!"
Remo não havia reparado na possibilidade de o inseto ser uma reles formiga.
"-Que foi? Ficou decepcionado? O fato de eu ser uma formiga faz a tua estória perder em potencial dramático?
Decerto estava decepcionado, tanto que se fez notar pela formiga. Remo não podia negar. Calou.
"-Eu te tolero... Eu te tolero." Disse a formiga assumindo tom irônico. "Afinal, vou pra cinco meses aqui, se meu indivíduo não se tornasse mais tolerante, não haveria torrão de açúcar que daria jeito." Rodeava com extrema presteza a borda da panela.
"-Isso aqui me relaxa, sabe? E meus sentidos, parece que ampliam. Me sinto enorme, integrada à natureza." E continuava seu circuito com ligeireza atordoante. Agora subia pela garrafa.
"-Eu creio que todo ser precisa de um momento pra isso, sentir o ritmo natural das coisas, que na cidade esquecemos, ou melhor, que não nos deixam lembrar. Diante destas maravilhas naturais, recolho-me à minha caganificância."
E foi no topo da garrafa onde pela primeira vez a formiga parou, respirou profundamente e vociferou em tom professoral.
"-Entrar em contato com esse extra-cotidiano me fez constatar que viver também pode ser um espetáculo estético!" Respirou novamente, parecia refletir sobre o que acabara de dizer.
"-Será que é isso? Menino? Ei, menino?!"
Remo dormia profundamente sobre as duas mãos juntinhas, num sono sereno como a luz da vela em meio à névoa.


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